sexta-feira, outubro 28, 2011

A acrobata

Luz Marina Acosta era menininha quando descobriu o circo Feruliche.
O circo Feruliche emergiu certa noite, mágico barco de luzes, das profundidades do Lago da Nicarágua. Eram clarins guerreiros as cornetas de papelão dos palhaços e bandeiras altas, os farrapos que ondulavam anunciando a maior festa do mundo.

A lona estava toda cheia de remendos, e também os leões, aposentados leões; mas a lona era um castelo e os leões, os reis da selva. E uma senhora rechonchuda, brilhante de lantejoulas, era a rainha dos céus, balançando nos trapézios a um metro do chão.

Então, Luz Marina deciciu tornar-se acrobata. E saltou de verdade, lá do alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas.

E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de Somonza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.
Porque quem entra no circo Feruliche não sai jamais.
(Eduardo Galeano)

quinta-feira, setembro 15, 2011

Nossa Senhora da Flor Roxa. Rosai por nós.
Assim na vida. Como no chão.
A primavera de cada ano. Nos dai hoje.

Alice Ruiz

sexta-feira, setembro 02, 2011

A primeira vez que entendi


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

Affonso Romano de Sant’Anna

Angústia

Queremos saber o que vão fazer com as novas invenções.
Queremos notícia mais séria sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações na emancipação do homem das grandes populações.
Homens pobres das cidades, das estepes dos sertões.
Queremos saber, quando vamos ter raio laser mais barato.
Queremos, de fato, um relato, retrato mais sério do mistério da luz.
Luz do disco voador.
Pra iluminação do homem.
Tão carente, sofredor, tão perdido na distância, na morada do senhor.
Queremos saber, queremos viver confiantes no futuro.
Por isso se faz necessário prever qual o itinerário da ilusão.
A ilusão do poder.
Pois se foi permitido ao homem tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam o que pode acontecer.
Queremos saber, queremos saber.
Queremos saber, todos queremos saber.
Gilberto Gil

Ainda com Guimarães...

“Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores, diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total.”

Guimarães Rosa

quinta-feira, setembro 01, 2011

Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

Guimarães Rosa


quinta-feira, junho 02, 2011

INVERNO

Coroada de névoas, surge a aurora por detrás das montanhas do oriente; Vê-se um resto de sono e de preguiça nos olhos da fantástica indolente. Névoas enchem de um lado e de outro os morros tristes... A custo rompe o sol; a custo invade o espaço todo branco; E a luz brilhante fulge através do espesso nevoeiro, como através de um véu fulge o diamante.Vento frio, mas brando, agita as folhas das laranjeiras úmidas...
É o inverno!(...)

Machado de Assis

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Ode a Baco














"Se acontecer é porque no fundo é o que se quer.

Fazer o que o inconsciente pede,

A sua essência se mantém.

O teu ser, a tua posição,

As tuas opiniões, os teus gostos,

Os teus amores, as tuas necessidades.

Vem é ao de cima aquilo que repelias.

Sem saber.

Aquilo que o teu subconsciente empurra para baixo

Para o mundo não conhecer

O teu verdadeiro ser..

Para que não demonstres o demónio que és..

E ele transforma-te nisso!

Naquilo que queres e nunca pudeste

Para amanhã já não te lembrares.

Como que por lua cheia te transformes em lobisomem

Para consumir-te de prazer,

Te trazer à essência do teu ser.

Tudo o que eu fiz com ele foi um grito,

Um acto, no momento

Todas as consequências anuladas

E vivo cada segundo.

Meu corpo não faz o que mando

Mas faz o que quero.

Não há consequências,

Não há constrangimentos,

Não há lembrança.

Para nos arrependermos amanhã da dor de ontem.

Apenas a dor de cabeça.

As tonturas, o cambalear, a insaciável sede,

A fome sem vontade de comer…

Arrependo-me só porque volto ao mundo de regras,

Onde não posso ser livre...

Onde me olham

E eu lembro-me quando me olham assim e refugio-me.

Quando ele me cega desses olhares,

Desses preconceitos e me deixa fazer o que quero…

Mas o amor..

Quando somente se quer o amor

Que poderá ele fazer por mim?

Que poderá ele fazer para o impedir?

Que prazeres carnais poderão substituir o êxtase que ela me trás?

Que toques e carícias àquela mulher sem nome

São mais que todo o ênfase do teu toque?

O toque do meu amor…

Não poderá ser trocado.

Nem tem comparação.

Liberto-me contigo, meu amigo…

Mas a liberdade… É estar com ela."

quarta-feira, março 11, 2009

Tão bom amar...

"Quando a luz estender a roupa nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo nossas duas almas
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados
Seremos, na manhã duas máscaras calmas
E felizes, de grandes olhos claros e rasgados...
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!
E as rosas da Cidade inda serão mias rosas,
Serão todas felizes, sem saber por quê...
Até os cegos, os entrevadinhos...
E vestidos, contra o azul, de tons vibrantes e violentos
Nós improvisaremos danças espantosas.
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cata-ventos! "

Mario Quintana

Ditabranda Ditadura, tanto bate até que fura!

Dona Dita sabia pouco.
Mas uma coisa ela sabia muito, pois aprendera com a sua avó,
grande conhecedora das artimanhas de um bom cozido:
o fogo tinha que ser brando.
Só que aí uma dita cuja, que mal conheceu a vó da Dita 
e era bem desapegada das pequenezas do saber e do sentir, não cuidou do fogo, e o cozido ficou duro. 
Mas só sabe disso é quem comeu.

Turnê do Encantamento

Foto: Wagner Merije 2008

Hoje vocês tem direito de, junto com a lua cheia, "acordar os deuses"!
Lembro da pia de Boiçucanga cheia, transbordando...
E o nosso Caetano estava lá, junto, concebendo o livro e sendo concebido.
Ao redor, o espírito de um velho jequitibá - o gigante da floresta -
e tucanos carnavalescos:
"Existirmos, a que será que se destina?"
E assim, eu brindo com vocês dois e todas as bonequinhas, sobre a mesa de nosso Peteca.
"Viver, Guimarães, é eteceterá".

8 de março - Dia da Luta das Mulheres


Aviso da Lua que Menstrua
Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

Ilustração: Paula Santos

sábado, junho 28, 2008

Toda Porra de Mês

EXpLOdINDOOOOOOOOOOOOOOOO
Como será que essa sensação se reflete por dentro do meu corpo?
Imagino as hemácias em guerra
O sangue deve se transpor do estado liquído para a emulsão do gasoso: fumaça vermelha
uM LABIRINTO DE células que caminham feito pacman
direitaEsquerdaSobeDesceSegueVIraVoltavai...sua...vaiSobeDesce....Volta
Cansa...Não chega a lugar nenhum DILATA!!!!!!!!!!
a bomba do lado esquerdo se acelera e bumBUMBUMMMMMMMMMM, parece que vai romper a carne e fugir...
Adrenalina e substâncias químicas venenosas invadem as células, deturpam minhas palavras,
alteram minha respiração, agridem todos os meus que aqui ao lado estão.
TPM?
Vulcão...

domingo, dezembro 16, 2007

UMA CRÔNICA.... Significados ou Liberdade!

POR QUE NÃO ?

Fragmentos Introdutórios

Malas nas costas (literalmente), coração aos pulos - tum, tum, tum - calafrios (espécie de frios-quentes), medo e desejo se misturando cada vez mais....

Dez dias de insônia. Olhares que se cruzaram sem quaisquer compromisso de concretização de uma história.

Uma ciranda, sedução, jogo, dois corpos próximos ao som de alguma coisa que acontece no meu coração entre a Ipiranga e a São João, onde se localiza a Viação Aérea de São Paulo. Destino? Maceió.

Boa Viagem (RE)...


Maceió, 13 de outubro de 2000 - Lua Cheia

Silêncio interior. Barulho de carros, pedestres, buzinas. Ouve-se passos que se destacam dos demais pelas especificidades de seus anseios.....
UMA PRAÇA. Praça do Centenário.
Ela, numa ponta da praça, indumentária: calça tipo cigarrete preta, blusinha branca e sandálias, nas costas uma mochila que parecia conter os anseios do mundo, peso. Ele, surge de uma outra ponta, calça preta, blusa bege e sapatos. Nas costas? Uma mochila também, menor do que a dela, porém passível de abrigar anseios..... Nas mãos uma garrafa d'agua.
Pronto! Era disso que ambos precisavam, ÁGUA, muita água...Água pra acalmar a ansiedade, a taquicardia, para apagar o calor que tomava conta de seus corpos e para produzir salivas, salivas para as próximas palavras que diriam um ao outro.

- Oi, eu vim! Ela estava por demais nervosa, tentava disfarçar, mas, imediatamente se traiu, derrubou a preciosidade daquela garrafa de água, tão repleta de significados...

Respiraram fundo.Ele passou a mão sobre o rosto dela e agora que já não tinham mais água, começaram a andar.
Na bem da verdade nenhum dos dois sabiam ao certo o que estavam fazendo ali, lado a lado. Haviam trocado tantas expectativas, saudades, se desejado mutuamente e no entanto nem sabiam quem eram, ou será que sabiam?Talvez isso nem importasse. E sairam a andar, andar pelas ruas da cidade, dentre pessoas que, no fundo de suas almas, naquele momento nem existiam .
Caminhavam lado a lado e as vezes, afobadamente, seus corpos se esbarravam sem a menor intimidade. Agora não se tratavam mais de corpos virtuais, tinham forma, volume, peso, cor, temperatura e até gosto e cheiro, embora os dois últimos eles ainda não sabiam. Corpos que guardavam dentro de si os desejos do mundo e os medos do mundo também.
Um ônibus, UFA, agora eles já podiam sentar-se próximos, como nunca haviam sentados, já tinham dado muitas voltas em círculo e estavam prontos para começar a se olhar, se ver (3ª categoria), se descobrir... Momento de constatações e surpresas: olhar as bocas, os olhos, os sorrisos, os jeitos.... Enfim, começaram a se REDESCOBRIR!
E a viagem começou, ou melhor, continuou....
VIAGEM (S.f. ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado), este seria um verbete bastante apropriado para definir tal situação. Se tratava de um afastamento no tempo, no espaço, na órbita e na imaginação que, agora, migrava de IMAGEM para AÇÃO. Uma viagem que transcendia duas vidas fincadas em mundos seccionados e que por opções irracionalmente concretas romperam a barreira do monótono cotidiano e se permitiram acreditar em sua intuições.
Estrada reta, caminhos sinuosos...Belo dia ensolarado, sereias sobre o mar. Dois olhares timidamente permitindo um encontro... Era como se pedissem licença um pro outro: Posso penetrar no seu mundo? E, contraditoriamente,  ao mesmo tempo em que buscavam um intercâmbio entre seus mundos, este momento só existia porque haviam deixado seus próprios mundos.
Ai... Primeira parada, agora começavam a sentir-se mais soltos, mais leves, como se trocassem seus sapatos e sandálias por confortáveis chinelos, como se molhassem os pés no mar, como se simplesmente contemplassem crianças brincando de quebrar potes....
Ali já sabiam que aquela história, como quase todas as histórias do mundo, não era repleta de verdades, tinha mentiras necessárias para torná-la verdadeira... e ela telefonou. Se viram verdadeiros nas suas mentiras e mentirosos nas suas verdades!
Outro carro, de volta a estrada... A estrada que os levavam deus sabe pra onde. Eles também não sabiam qual seria o caminho escolhido ou quais seriam os caminhos a escolher, a percorrer e a regressar. Agora o carro era menor, bem menor, mais confortável.... como se aos poucos eles fossem chegando cada vez mais perto do espaço interior um do outro, aos poucos, bem aos pouquinhos, iam escrevendo está história num papiro branco.
Dúvidas ? TODAS DO MUNDO. Desde sempre, desde que seus olhos se cruzaram numa ciranda ou seus corpos se conheceram numa dança... Pra onde ir ? Não sabiam nem ao certo se deveriam ir, quanto menos pra onde!
E voltaram a andar. Andaram, andaram, suaram. Ela era bem mais leve do que quando se encontraram na Praça, pois a mochila que guardava o peso dos seus anseios estava sobre as costas dele...
Se cansaram? Sim, cansaram. Mas ali, naquele momento, já se gostavam e a Barra de Santo Antônio respirava tranquila porque via-os bem.
Era uma história tão sem nexo, tão aparentemente sem lógica, afinal desejo, paixão são coisas equivocadamente apresentáveis sem lógica, que parecia ser preciso ainda mais.... Transgredir o continente, atravessar a água (que é a mais pura representação dos sentimentos) e atracar num outro território, num outro mundo, numa outra tela, como num filme onde a LUA se encontrava no camarim, se despindo para que na sua mais nua beleza iluminasse e brindasse aquele momento ímpar, quando assim eles a solicitassem.
Era uma ilha, no imaginário popular símbolo do isolamento - Quem você levaria para uma Ilha deserta?-, e de repente o destino lhes jogou ali. Nela dois mundos estranhos foram convergidos pra uma história em comum. Uma história que a cada momento colecionava mais dados, mais detalhes, mais imagens...Imagens como a daquela canoa que os ligara aquele outro mundo.

E novamente, saíram  a andar.... Poxa, como andaram.... Andavam há dez dias sem nem perceber!Seus corpos estavam cansados, pediam, suplicavam, por aconchego, repouso, banho, sossego....... e encontraram!Demorou, mas enfim, encontraram. Era um casebre....Um gracioso casebre que agora abrigara seus corpos e seus pertences... Um casebre que sabiamente impedia a visão da paisagem dos fundos, aquela que representara o dia a dia, o previsível, o estático e, ao mesmo tempo, AMPLIAVA, ABRIA, ESCANCARAVA o cenário da janela da frente....Que pena, mas somente os dois, ELE e ELA, puderam conhecer a paisagem da frente!

Bem, agora já não tinham mais malas nas costas e suas antenas telefônicas estavam temporariamente desligadas do mundo. Seus corpos eram, jaz, mais leves, mais limpos....Já haviam olhado pra si, olhado entre si e olhado ao redor. Escutado as palavras do mar e contemplado a rara beleza da Lua. ENTÃO, com a coragem que somente os valentes neurônios embebecidos no álcool ousam alcançar, lá estavam eles, finalmente prontos. Prontos para se tocar! E se tocaram... como se tocaram!
É, ela estava lá, de testemunha! Quem???????????????? A LUA!
Estava CHEIA, tão cheia.... cheia de orgulho! Orgulho porque na história da humanidade foram poucas, pouquíssimas as vezes em que ela pode presenciar tamanha insubmissão. Onde duas pessoas inconsequentemente "arrancaram" gravatas, paletós, vestidos longos, regras, conveniências, tempo, lógica, espaço e medo SIMPLESMENTE pra se olhar e se tocar.
SE OLHAR e SE TOCAR.... algo que parece tão pouco aos olhos de muitos!

AH, a Lua aplaudiu e o Mar se embriagou!
Para Lua e o Mar, enquanto compartilhavam e contemplavam aqueles instantes, nem perceberam ou se lembraram do quanto eram espacialmente distantes!

Lua e Mar, lado a lado, metaforicamente como Ela e Ele, faraway, so close...

E enquanto viveram, Ela e Ele, esta história em comum, foram aprendendo um pouco mais sobre as contradições, os paradoxos, as metáforas, enfim, as figuras de linguagens do mundo...

"E pensar que tudo começou a partir de uma pergunta: "Por que não?"
A pergunta mais perigosa que existe, a mais subversiva.
Por que não, se eu quero sim!
Não se perguntem nunca, não se perguntem "por que não?". A MENOS QUE VOCÊS QUEIRAM SIM!"

out/2000

quinta-feira, setembro 27, 2007

JUVENTUDE

É preciso avisar toda a gente
dar noticia, informar, prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.

É preciso avisar toda a gente
segregar a palavra e a senha
engrossar a verdade corrente
de uma força que nada detenha

É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta

É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
é preciso, imperioso e urgente
Mais flores! Mais flores! Mais flores!

João Apolinário

segunda-feira, agosto 06, 2007

O Poema do semelhante

Eh mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

Elisa Lucinda

Segredo inviolável

""Grite", ordenei-me quieta.
"Grite", repeti-me inutilmente com um suspiro de profunda quietude. (...)

Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável."

Clarice Lispector

terça-feira, abril 24, 2007

Merije...par de luas!


FELICIDADE É UMA VIAGEM


se felicidade é uma viagem

eu tô fazendo a coisa certa

tô seguindo o meu caminho

de coração e cabeça aberta

sem hora para chegar

apreciando a paisagem

fazendo o melhor que eu posso

pra não ficar na saudade

porque felicidade é uma viagem

não tem idade

não é bobagem

é só uma viagem


Wagner Merije


www.myspace.com/coletivouniversal




segunda-feira, abril 23, 2007

OGUNHÊ, Salve Ogum! - 23 de abril


Divindade masculina ioruba, figura que se repete em todas as formas mais conhecidas da mitologia universal. Ogum é o arquétipo do guerreiro. Bastante cultuado no Brasil, especialmente por ser associado à luta, à conquista, é a figura do astral que, depois de Exu, está mais próxima dos seres humanos. Foi uma das primeiras figuras do candomblé incorporada por outros cultos, notadamente pela Umbanda, onde é muito popular. Tem sincretismo com São Jorge ou com Santo Antônio, tradicionais guerreiros dos mitos católicos, também lutadores, destemidos e cheios de iniciativa.

A relação de Ogum com os militares (é considerado o protetor de todos os guerreiros) tanto vem do sincretismo realizado com São Jorge, sempre associado às forças armadas, como da sua figura de comandante supremo ioruba. Dizem as lendas que se alguém, em meio a uma batalha, repetir determinadas palavras (que são do conhecimento apenas dos iniciados), Ogum aparece imediatamente em socorro daquele que o evocou. Porém, elas (as palavras) não podem ser usadas em outras circunstâncias, pois, tendo excitado a fúria por sangue do Orixá, detonaram um processo violento e incontrolável; se não encontrar inimigos diante de si após te sido evocado, Ogum se lançará imediatamente contra quem o chamou.

Ogum não era, segundo as lendas, figura que se preocupasse com a administração do reino de seu pai, Odudua; ele não gostava de ficar quieto no palácio, dava voltas sem conseguir ficar parado, arrumava romances com todas as moças da região e brigas com seus namorados.

Não se interessava pelo exercício do poder já conquistado, por que fosse a independência a ele garantida nessa função pelo próprio pai, mas sim pela luta.

Ogum, portanto, é aquele que gosta de iniciar as conquistas mas não sente prazer em descansar sobre os resultados delas, ao mesmo tempo é figura imparcial, com a capacidade de calmamente exercer (executar) a justiça ditada por Xangô. É muito mais paixão do que razão: aos amigos, tudo, inclusive o doloroso perdão: aos inimigos, a cólera mais implacável, a sanha destruidora mais forte.

Segundo as pesquisas de Monique Augras, na África, Ogum é o deus do ferro, a divindade que brande a espada e forja o ferro, transformando-o no instrumento de luta. Assim seu poder vai-se expandindo para além da luta, sendo o padroeiro de todos os que manejam ferramentas: ferreiros, barbeiros, tatuadores, e, hoje em dia, mecânicos, motoristas de caminhões e maquinistas de trem. É, por extensão o Orixá que cuida dos conhecimentos práticos, sendo o patrono da tecnologia. Do conhecimento da guerra para o da prática: tal conexão continua válida para nós, pois também na sociedade ocidental a maior parte das inovações tecnológicas vem justamente das pesquisas armamentistas, sendo posteriormente incorporada à produção de objetos de consumo civil, o que é particularmente notável na industria automobilística, de computação e da aviação.

Assim, Ogum não é apenas o que abre as picadas na matas e derrota os exércitos inimigos; é também aquele que abre os caminhos para a implantação de uma estrada de ferro, instala uma fábrica numa área não industrializada, promove o desenvolvimento de um novo meio de transporte, luta não só contra o homem, mas também contra o desconhecido.

É pois, o símbolo do trabalho, da atividade criadora do homem sobre a natureza, da produção e da expansão, da busca de novas fronteiras, de esmagamento de qualquer força que se oponha à sua própria expansão.

Tem, junto com Exu, posição de destaque logo no início de um ritual. Tal como Exu, Ogum também gosta de vir à frente. A força de Ogum está tanto na coragem de se lançar à luta como na objetividade que o domina nesses momentos (e o abandona nos momentos de prazer e gozo).

É fácil, nesse sentido, entender a popularidade de Ogum: em primeiro lugar, o negro reprimido, longe de sua terra, de seu papel social tradicional, não tinha mais ninguém para apelar, senão para os dois deuses que efetivamente o defendiam: Exu (a magia) e Ogum (a guerra); segundo Pierre Verger. Em segundo lugar, além da ajuda que pode prestar em qualquer luta, Ogum é o representante no panteão africano não só do conquistador mas também do trabalhador manual, do operário que transforma a matéria-prima em produto acabado: ele é a própria apologia do ofício, do conhecimento de qualquer tecnologia com algum objetivo produtivo, do trabalhador, em geral, na sua luta contra as matérias inertes a serem modificadas .

Ogum gosta do preto no branco, dos assuntos definidos em rápidas palavras, de falar diretamente a verdade sem ter de preocupar-se em adaptar seu discurso para cada pessoa.

Ogum gosta de dormir no chão, precisa que o corpo entre em contato sempre direto com a natureza e dispensa roupas elaboradas e caras, que possam ser complicadas de vestir ou que exijam muito espaço na mochila. Não tem compromisso com ninguém, nem com seus próprios objetos.

A violência e a energia, porém não explicam Ogum totalmente. Ele não é o tipo austero, embora sério e dramático, nunca contidamente grave. Quando irado, é implacável, apaixonadamente destruidor e vingativo; quando apaixonado, sua sensualidade não se contenta em esperar nem aceita a rejeição. Ogum sempre ataca pela frente, de peito aberto, como o clássico guerreiro.

Existem sete tipos diferentes de Ogum, mas Ogum Xoroquê merece um destaque específico, pois é um Orixá masculino duplo, ou seja possui duas formas diferentes de manifestação. É associado à irmandade e afinidade estreita de Ogum com Exu, pois passa seis meses do ano como Ogum e os outros como Exu, sendo considerado guerreiro feroz, irascível e imbatível.

Características dos Filhos de Ogum

Não é difícil reconhecer um filho de Ogum. Tem um comportamento extremamente coerente, arrebatado e passional, aonde as explosões, a obstinação e a teimosia logo avultam, assim como o prazer com os amigos e com o sexo oposto.

Os homens e mulheres que têm Ogum como seu Orixá de cabeça, vão ter comportamentos diferentes, de acordo com os segundos e terceiros Orixás que os influencia ajuntós (adjutores). De qualquer forma , terão alguns traços comuns: são conquistadores, incapazes de fixar-se num mesmo lugar, gostando de temas e assuntos novos, conseqüentemente apaixonados por viagens, mudanças de endereço e de cidade. Um trabalho que exija rotina, tornará um filho de Ogum um desajustado e amargo. São apreciadores das novidades tecnológicas, são pessoas curiosas e resistentes, com grande capacidade de concentração no objetivo em pauta; a coragem é muito grande, a franqueza absoluta, chegando mesmo à falta de tato.